AGACHAMENTO DOBRABILIDADE - PARTE 2

MITO: O joelho não deve passar da linha do dedão dos pés

Mariane Malucelli   30/08/2018

A relação dos joelhos com a linha da força é o verdadeiro problema e não a relação do joelho com os dedos do pé. Esta relação entre a linha da força e o joelho não é resolvida nos afundos ou agachamentos na parede, onde o joelho não passa a frente do dedão do pé.

Você já se perguntou sobre a razão mecânica por traz da regra e mito do agachamento de que o “Joelho não pode avançar à frente do dedão do pé?”  

Você realmente acredita que existe uma linha mágica?

Vamos explorar um pouco esse assunto e vamos iniciar com algumas das razões que escutamos os profissionais usarem para justificar perpetuarem este mito.

  1. “Se o joelho avançar à frente do dedão do pé o cisalhamento no joelho aumenta”! Mas onde? Como?

  2. "Causa tendinite patelar" Como? Em todos os indivíduos? Independente da frequência/velocidade/carga/volume etc.?

  3. “Aumenta o stress no joelho”! Como? Você sabe definir o que significa stress no joelho?

  4. “Faz mal para o joelho”! Como? Para quem?

  5. “Agachamento não pode passar além de 90 graus da flexão do joelho e o dedão do pé é a referência, se avançar à frente do dedão, o grau de flexão é maior do que 90”! Linha mágica e grau mágico? E se for 85 graus ou 95 graus? Qual é pior ou melhor?

As verdadeiras questões envolvidas nas decisões a serem tomadas ao prescrever um agachamento envolvem algumas realidades da mecânica da resistência e da mecânica articular.

 

1. MECÂNICA DA RESISTÊNCIA

O momento para o joelho, durante o agachamento livre, normalmente aumenta à medida que o joelho se move para frente em maior flexão, aumentando assim a quantidade de resistência.

É o comprimento do braço do momento que determina o grau de participação de cada articulação dentro do sistema de dobrabilidade. Isso envolve a participação muscular e também as forças articulares. Durante um agachamento realizado encostado na parede, o comprimento do braço do momento pode ser maior do que um agachamento livre com o joelho em um grande grau de flexão que o faz avançar à frente do dedão do pé.

O mesmo é verdade no afundo, onde novamente o joelho da perna posicionada anteriormente normalmente não avança à frente do dedão do pé. Na verdade, os braços do momento para a articulação do joelho são muito semelhantes ao agachamento! (Se eles não fossem semelhantes haveria pouco desafio para o quadríceps.)

Quando desejamos criar um agachamento onde o joelho não flexiona além de 90 graus e a linha da força atravessa "o joelho/através do comprimento da tíbia até o chão", as forças articulares para o joelho realmente serão menores, porém, não existirá trabalho no quadríceps!

2. MECÂNICA ARTICULAR: POSIÇÃO ARTICULAR DO JOELHO

Abaixo listamos algumas realidade mecânicas influenciadas pelo grau de flexão do joelho, que quanto maior...

Articulação do joelho

  • Maior será o contato dos côndilos posteriores no platô tibial, progressivamente.

  • A superfície de contato dos côndilos será progressivamente reduzida. 

  • A espessura da cartilagem hialina é reduzida na porção posterior dos côndilos, progressivamente.

  • Somatória dos fatores acima:  #1 + #2 + #3 = superfície de contato diminuída + aumento do estresse na cartilagem menos espessa.

Articulação patelo-femural

  • Haverá aumento da resultante gerada pela força do quadríceps e seu tendão na patela.

  • Mas isso pode não aumentar a compressão patelar se a patela estiver bem encaixada / alinhada porque ao mesmo tempo existe um aumento no contato / superfície de contato da tróclea com a patela conforme o joelho flexiona.

  • Mas e se o deslocamento patelar não for perfeito devido à estrutura, tração muscular ML, rotação / posição do joelho durante a execução etc., este cenário muda.

Porém, existem fatores essenciais que determinam o grau de influência que os fatores acima podem ter em cada indivíduo, são estes:

  1. Estrutura: valgo, patela, tróclea etc.

  2. Idade: efeitos do envelhecimento, efeitos da puberdade?

  3. Integridade neuromuscular: inibição de jogadores-chave específicos etc.

  4. Como é realizado: desacelerado, saltando etc.

Portanto, não é que avançar o joelho além do dedo do pé é bom ou ruim. Isso definitivamente aumenta as forças articulares, mas os exercícios que foram criados como alternativas para esta realidade mecânica não resolvem o resultado na articulação.

Os fatores realmente fundamentais são:

  1. o grau de flexão de joelho que você necessita e/ou alcança.

  2. o alinhamento entre as estruturas e aqueles que são induzidos pela demanda criada pela resistência e o fator que potencialmente tem o maior efeito e que podemos mais facilmente influenciar.

  3. o grau de controle ou falta de controle sobre a desaceleração.

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Mariane Malucelli

Fisioterapeuta licenciada no Brasil e nos USA, especialista em Mecânica do Exercício, residente em traumato ortopedia na OrthoCarolina (USA). Palestrante da Cybex no Brasil entre 2003 e 2006. Diretora dos programas do RTS no Brasil desde 2003. Professora de Pós Graduação em Mecânica do Exercício, na PUC-PR e Universidade Positivo. E por último, porém o mais importante: mãe da Chloe e do Benjamin, esposa do Marcos e apaixonada pela vida!

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